Viajantes...

A viagem não acaba nunca. Só os viajantes acabam. E mesmo estes podem prolongar-se em memória, em lembrança, em narrativa. Quando o visitante sentou na areia da praia e disse: “Não há mais o que ver”, saiba que não era assim. O fim de uma viagem é apenas o começo de outra. É preciso ver o que não foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na primavera o que se vira no verão, ver de dia o que se viu de noite, com o sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aqui não estava. É preciso voltar aos passos que foram dados, para repetir e para traçar caminhos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre.

José Saramago

quinta-feira, 29 de maio de 2014

Tour Europa - Terceira parte: Praga, Berlin, Hamburgo e Amsterdã

Na chegada à Praga outro perrengue, mas pequeno. As vezes acontece isso; a gente olha no mapa e tudo parece perto e fácil e na realidade é diferente. O hostel que havia reservado era muito longe e caminhar até lá, com mochilão nas costas, não seria fácil.
Gosto de viajar sempre com o hotel reservado para evitar problemas, mesmo porque geralmente a gente chega cansado e quer tomar banho e descansar um pouco.
Meu Nokia N8 é meu companheiro de jornadas e por ele me guio através do GPS; ele mostrava o local e olhando vi que era longe e complicado de chegar.
Optei por voltar às proximidades da estação e procurar um hotel próximo; já imaginava pagar muito mais caro - hotéis próximos de terminais sempre são caros e os mais baratos são ruins - mas acabei descobrindo um hotel a meia quadra da praça da estação, quarto individual e mais barato do aquele hostel que tinha reservado. As vezes a solução vem fácil.
Um dos pontos turísticos que tinha anotado para visitar estava ali, praticamente em frente ao hotel. A famosa estátua "O beijo do soldado".

Estátua O Beijo do Soldado

Tinha dois dias para visitar Praga - novamente me pergunto porque não reservei mais um dia - e então fui à rua.
Caminhei pelo centro da cidade até a praça de Venceslau, a principal da cidade, até a frente do Museu Nacional de Praga, um dos principais museus da cidade.
Museu Nacional

Essa região central mescla prédios antigos com área comercial, com lojas conhecidas, como C&A.
No caminho, parada obrigatória em frente ao relógio astronômico, na torre da antiga prefeitura. O relógio tem mais de 600 anos e quando pensei que era apenas eu o turista bobo olhando pra cima, quando se aproximou da hora cheia apareceram centenas de turistas para assistir o que se repete há muito tempo.
Relógio astronômico

Nas horas cheias, das oito da manhã as oito da noite, abrem-se duas janelinhas azuis e por ali desfilam os doze apóstolos e a impressão é de que eles estão olhando a multidão lá embaixo. Depois que passa a última figura apostólica, canta um galo dourado, empoleirado acima das janelas, o relógio dá a hora, as janelas se fecham e a multidão começa a se dispersar.
Impressionante que um equipamento mecânico continue a funcionar de maneira tão precisa depois de anos. Quem quiser saber mais uma página interessante é: http://wol.jw.org/pt/wol/d/r5/lp-t/102000368
A praça em frente está sempre cheia de turistas , vendedores e artistas de todos os gêneros.
Já viajei bastante mas nunca encontrei um lugar tão interessante e bonito quanto o centro de Praga e principalmente o bairro judeu. São ruas e vielas com prédios antigos mas bem cuidados, com surpresas a cada esquina.
As vezes pensava que estava numa galeria de lojas, geralmente com um arco na entrada, mas na verdade era uma rua, limpa, iluminada e bem cuidada.
rua no centro

Caminhei até o fim da rua Kaprova onde há a praça (namesti) Franze Kafka e o prédio onde morou Kafka, hoje um café. Tomei um cafezinho para aproveitar o wi-fi, claro.
Casa de Kafka

Continuei caminhando pelo centro até tarde e voltei ao hostel para descansar para o outro dia que tinha mais atrações.
Caminhando pelo centro, fui até uma torre - existem várias dessas na cidade - que dá acesso a ponte Carlos, a mais famosa das pontes sobre o rio Moldava (Vltava) que corta a cidade.
entrada da ponte Carlos

Logo depois da ponte almocei numa cantina italiana, onde comi o melhor risoto al funghi da minha vida - acho que estava com fome mesmo - com uma taça de Lambrusco. Dali direto a Castelo de Praga, pertinho.
vista da cidade e do rio com suas pontes

O Castelo de Praga encontra-se na Colina Hradcany - local onde a cidade nasceu - e foi fundado no século IX. Atualmente serve como a residência presidencial e antigamente era habitado pelos reis da Boêmia. Em seu interior encontra-se Catedral de S. Vito, Torre da Pólvora, Palácio Real do Castelo de Praga, Torre Dalibor, Convento de São Jorge, Palácio Lobkowicz e a Viela Dourada - ou rua de ouro.
frente do Castelo de Praga

O Castelo de Praga ocupa uma área superior a 72,5 mil m². Por causa disso é considerado, conforme o Guinness World Records Book, o maior castelo do mundo.
Fiquei uma tarde no local mas para realmente visitar com calma o ideal seria um dia todo. No final, tomei um café na cafeteria do castelo e me senti privilegiado por ter uma oportunidade dessas.


café no castelo

vista da cidade da Colina Hradcany - Castelo de Praga

Dia 26 novamente caminhei pela cidade e fiz uso do transporte mais útil , na minha opinião, o metrô. O metrô de Praga tem 3 linhas e 59 estações.


bela paisagem

No final da tarde fui de metrô até Letnani, subúrbio da cidade, onde existem vários conjuntos habitacionais "populares", que aqui seriam de classe média, e de onde sai ônibus para o aeroporto.
Comi pizza numa lancheria, comprei chocolate e água para a viagem da noite e retornei ao hotel para pegar mochilas, rumo a Berlin.

Cheguei em Berlin com aquilo que mais atrapalha o turista: a chuva. Chuva fina e gelada mas que não atrapalhou o passeio. Perdi bastante tempo para chegar ao hostel porque foi necessário trocar de linha do metrô tres vezes. Depois de check-in, banho e troca de roupa - de novo a rotina - saí pela cidade, sempre utilizando o metrô.
Fui conhecer o Berliner Dom, a Alexanderplatz, o Sony Center, Potsdamer Platz e a torre de TV. A idéia era subir a torre, de onde dizem a vista de Berlin é maravilhosa mas a fila era muito grande. Ali paga-se o acesso e ganha uma senha e naquele momento a fila era de quase mil pessoas.


 Altes Museum

 fazendo pose

frente ao Berliner Dom

 Sony Center

torre de TV

Fiz um lanche e retornei ao hostel. Conversando com minha filha comentei que ali perto tinha o museu dos Ramones  ela me cobrou uma foto. Mesmo sendo tarde fui procurar o museu; era perto mas errei a rua e caminhei bastante mas encontrei. Como é um pub, consumindo algo não paga entrada e então tomei um café, ganhei um pin e comprei outro como lembrança para minha filha.


Pub - Museu dos Ramones

No outro dia dei sorte que não estava mais chovendo, embora o frio continuasse.
Visitei então pontos que havia relacionado, como o Reichstag, o Memorial das vitimas do holocausto e o Checkpoint Charlie - onde eram verificados os passaportes na época da guerra fria - e a parte da antiga Berlin Oriental. Fui até o East Side gallery, onde existe o último pedaço do muro de Berlin.


 Checkpoint Charlie

muro de Berlin

Nesse dia voltei cedo ao hostel para dormir cedo porque no outro dia tinha passagem comprada para Hamburgo, bem cedo da manhã.

Para Hamburgo reservei apenas um dia, com a idéia de ser caminho para Amsterdã. Poderia escolher Hannover ou Bremen mas tinha curiosidade por Hamburgo.
Hamburgo fica à beira do rio Elba, a cerca de 70 quilometros do Mar do Norte, onde o rio Elba se divide em vários canais.
Cheguei cedo na cidade. Deixei a mochila no guarda-malas e tomei o bus turístico, que sai da frente da estação. Primeira parada junto ao porto e depois resolvi não desembarcar no centro, fazendo todo  itinerário do bus até chegar na estação novamente, tendo assim uma idéia da cidade.

porto de Hamburgo

Comi algo e então fui caminhar pelo centro, passando pela igreja de St. Michaelis, Rathaus e acabei fazendo compras numa C&A, um blusão novo (o frio estava aumentando).


 canal no centro

Rathaus 

ruas do centro de Hamburgo

Voltei à estação e comprei o ticket para Amsterdã; outro perrengue: depois que já tinha comprado e pago, a atendente me explicou que tinha de trocar tres vezes de trem. Cheguei à conclusão de que, além de pagar caro (os trens na Alemanha são bons mas não são baratos) perderia muito tempo.
Desisti da viagem e para ter meu dinheiro de volta tive de pagar uma taxa.
Pedi informação à própria atendente da DB sobre terminal de ônibus e ela me disse que era só atravessar a rua; realmente bem na frente da estação tem um terminal urbano e logo adiante um terminal interurbano.
Para comprar o ticket, a empresa não aceitava cartão e foi necessário procurar um terminal bancário para sacar dinheiro. Ainda bem que tinha um a uma quadra dali.
Saquei grana, retornei ao terminal, comprei o ticket e, como tinha tempo, fiz um lanche e procurei uma lanhouse para acessar a internet e ver meus e-mails.
Na hora marcada de embarque, a surpresa: esperava um ônibus normal, com o conforto dos ônibus que já tinha viajado, mas não chegava nunca o tal ônibus. Voltei ao guichê  e perguntei se estava atrasado e a moça respondeu: Está lá!
Era um van, mais precisamente uma Sprinter; faze o quê? Passagem comprada, não ia desistir. É complicado viajar quase toda uma noite apertado numa van, sem banheiro e sem condições de tirar uma soneca. Fiquei com pena daqueles que seguiriam viagem até Paris, destino final da van.
E assim chegamos a Amsterdã.

Na Europa o normal é existirem terminais de ônibus das próprias companhias, onde você compra a passagem e embarca ali mesmo. O ônibus, melhor dizendo a van, deixou, eu e outros, num posto de troca de motoristas, próximo a estação de trens de Amsterdã, onde também é ponto final de muitas linhas de bonde.
 
 estação de trens de Amsterdã

Como era madrugada, ninguém nas ruas, bondes parados e eu não tinha sequer idéia de onde era o hostel que havia reservado. Pelo que vi no mapa, era bastante longe dali. Sorte que sempre levo meu roteiro, cheio de dicas, impresso em papel, para caso de pane ou falta de bateria no tablet. Tinha endereço de outro hostel baratinho mas também não tinha idéia de onde era, embora pelo mapa fosse mais perto.
Esperei cerca de meia hora, tentando me achar através do mapa do GPS e aconteceu um milagre, um táxi apareceu. Não tinha noção de quanto pagaria pela corrida e nem se o hostel teria lugar pra mim mas não poderia ficar ali no frio, de madrugada, num lugar abandonado e que eu não conhecia.
O táxi me deixou na esquina porque era uma rua somente de pedestres; o recepcionista disse que não tinha disponibilidade mas criei uma estória, disse a ele que tinha reservado e mostrei o endereço impresso na folha de papel. Sumiu por minutos e voltou dizendo que tinha conseguido lugar; estranho porque o quarto que conseguiu tinha seis camas e somente uma ocupada. Cheguei à conclusão de que a negativa inicial se devia à minha idade, porque já tinha lido que em alguns hostels não se permite pessoas com mais de 40 anos.
Deixei a mochila e saí à rua para comer algo; pelo que tinha observado na chegada, a rua era cheia de bares, abertos até aquela hora.
Encontrei uma lancheria com um sistema interessante que existe lá, uma espécie de vitrine com várias portinhas. Você escolhe o tipo de lanche, coloca moedas e retira o lanche escolhido.
Na entrada do hostel era impressionante o cheiro de maconha; claro, a frente tinha u café e toda vez que abria a porta para alguém sair era uma fumaceira danada. Na chegada a Amsterdã já fui apresentado os tais cafés locais.
De manhã, depois do café, peguei um táxi e fui para o hostel reservado. Era melhor mas a escada de entrada com uma inclinação estranha, que idosos e quem tem alguma deficiência não conseguiria subir.
Aí o recepcionista tirou minha dúvida sobre o atendimento no outro hostel; realmente eles não costumam aceitar pessoas com aais de 40 anos. Os hostels são feitos para a garotada. Só aceitou porque eu já tinha reservado e depois de perguntar se teria problema, já que, palavras dele "os jovens não tem hora para dormir e costumam fazer festas". Claro que nã tem problema, respondi.
A escada de acesso e o hall cheirando a canabis.
Por orientação do recepcionista, aluguei uma bicicleta, meio de transporte mais comum em Amsterdã. Assim rodei todo o dia pela cidade, conhecendo os canais, as pontes e o centro.


 típico de Amsterdã: canais, pontes e bicicleta

No outro dia fui por outro caminho, mais longo, ao centro para comprar passagem de trem para Bruxelas.
Fiquei impressionado com a quantidade de bicicletas estacionadas junto à estação e arredores. Foi difícil encontrar lugar para deixar a minha bicicleta, nos locais destinados.


"mar" de bicicletas

No caminho conheci um moinho de vento, marca registrada da Holanda. Esse deve ser o último dentro da cidade e hoje está transformado em um restaurante.


moinho de vento

A tarde devolvi a bicicleta e fui a pé até o centro.
Andando pelas ruas do centro passei pelo Red Light District, famoso e sempre procurado pelos turistas, local onde as garotas de programa ficam seminuas e expostas em vitrines.
A tardinha visitei um parque próximo do hostel e dormi cedo; no outro dia, dia 1º de novembro, a viagem era para Bruxelas.

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