Viajantes...

A viagem não acaba nunca. Só os viajantes acabam. E mesmo estes podem prolongar-se em memória, em lembrança, em narrativa. Quando o visitante sentou na areia da praia e disse: “Não há mais o que ver”, saiba que não era assim. O fim de uma viagem é apenas o começo de outra. É preciso ver o que não foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na primavera o que se vira no verão, ver de dia o que se viu de noite, com o sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aqui não estava. É preciso voltar aos passos que foram dados, para repetir e para traçar caminhos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre.

José Saramago

quarta-feira, 17 de julho de 2013

VOLTA PELO URUGUAI

No dia 20 de março deste ano comecei uma viagem que estava nos planos já há tempo: uma volta pelo Uruguai.
O país vizinho é um local pouco visitado por nós que moramos tão perto e nos limitamos a fazer compras em Rivera. O Uruguai é muito mais que isso.
Antes da saída claro que fiz uma revisão completa no carro e além das malas de roupas e objetos pessoais, incluí barraca e saco de dormir, que se mostraram muito úteis em Salto, como descrevo mais adiante.
A saída foi complicada pois choveu desde a saída de Porto Alegre até o outro dia, só melhorando o tempo quando já estava em Punta del Leste.
Saí de Porto Alegre dia 19. O grande movimento de caminhões na estrada e a chuva complicaram bastante, atrasando a viagem e obrigando a por pernoitar em Rio Grande.
No dia 20 saí cedo, pela RS 471, que vai ao Chuí, passando por Santa Vitória do Palmar, trecho de cerca de 200 km de estrada - praticamente uma reta - que passa entra as lagoas Mirim e Mangueira e atravessando o Taim.
A Estação Ecológica do Taim (ESEC Taim) é uma unidade de conservação de proteção integral da natureza localizada no sul do estado do Rio grande do Sul, com aproximadamente 30% de seu território abrangendo o município de Rio grande e 70% o de Santa Vitória do Palmar.

Grande parte da estrada é uma grande reta, rodeada de banhados. Do lado esquerdo muita vegetação e pode-se avistar alguns animais selvagens e, contrastando, do lado direito vê-se muito gado pastando.

Pórtico da entrada de Santa Vitória do Palmar

De Santa Vitória ao Chuí são cerca de 20 km de estrada razoável e sem muito movimento.
A cidade do Chuí - ou Chuy - é uma cidade pequena cortada ao meio por uma avenida, a Avenida Brasil Uruguai, continuação da Ruta 19 que vai a Lascano (Uruguai).
Do lado brasileiro muitas lojas de roupas e do lado uruguaio inúmeros free-shops e casas de câmbio.
No Chuí (ou Chuy) fiz a "carta verde", seguro obrigatório para rodar pelo Mercosul. Existem vários prédios na estrada com escritórios onde pode-se comprar o seguro.
Ali troquei reais por pesos uruguaios e aproveitei para comprar algumas lembrancinhas.
É interessante ter dólares para as compras mas mais importante é ter pesos uruguaios, pois é necessário compras no supermercado, pagar alimentação e principalmente as tarifas dos pedágios, em moeda local.
Em toda a viagem passei por oito praças de pedágio; o valor é de 55 pesos, equivalente a pouco mais de 5 reais, exceto em um deles que era de 40 pesos, cerca de 4 reais atualmente.
Ao final da RS 471 começa a Ruta 9, que vai do Chuí a Montevideu.
O posto da imigração fica uns 3 km depois, já em território uruguaio e a burocracia não é tão complicada. Estando a documentação OK é rápido, bastando apenas o preeenchimento do documento de imigração. Nem olharam o carro e nem se preocuparam em verificar se tinha o seguro "carta verde".
Interessante é que alguns kilometros adiante a estrada transforma-se em pista de pouso de emergência para aviões; é inusitado ver uma placa informando que pode ocorrer pouso de aeronaves e de repente a estrada fica mais larga e com a pintura característica de pista de aeroporto. É uma viagem!
No Uruguai as estradas são boas - muito boas - inclusive aquelas bem afastadas das grandes cidades e poucas têm trechos ruins.
E lá tem pedágio. Paguei pedágio oito vezes, sete de 55 pesos - equivalente hoje a R$ 5,80 - e um de 44 pesos - hoje R$  4,65 - e pedágio na ponte internacional San Martin, entre Fray Bentos e Gualeguaychu (Argentina) de 8 dólares e de 60 pesos argentinos - cerca de 24 reais, hoje - na ponte entre Colón e Paysandu.
As estradas do interior do país são estreitas mas com piso bom e bem sinalizadas.
*
Feito a observação, vamos ao roteiro.
Minha primeira parada foi no Forte Santa Teresa. Próximo dali existe o Parque Nacional de Santa Teresa, que desisti de visitar por causa da chuva, mas dizem que é bastante interessante e visitado por campistas e, principalmente, pescadores.
A Fortaleza de Santa Teresa integrava a antiga linha raiana denominada como Linha de Castillos Grande (Tratado de Madrid, 1750) e tinha a função de guarnecer o desfiladeiro de Angostura, vizinho ao monte de Castillos Grande, cerca de vinte quilômetros ao sul da Lagoa Mirim.
Foi construída em 1762 pelos portugueses, diante da ameaça de invasão dos espanhóis, que já haviam tomado Colonia do Sacramento.
Os espanhóis tomaram o forte ainda em construção, em 1763 e em 1927 foi tombado como Monumento Nacional do Uruguai. 
Na entrada existe segurança mas não é cobrado qualquer valor para visitação. Pode-se visitar todos os prédios, como a sala de munição, alojamentos, cozinha, enfermaria e outros prédios da época.
Algumas peças de canhão ainda estão colocadas sobre as muradas e o local é bastante conservado.

 canhões originais da fortaleza
interior de uma das salas do forte
 parte externa do forte

Saindo do forte continuei pela Ruta 9 até Punta del Diablo. É uma praia pequena e interessante, com a praia de Rivero a esquerda, muitas pedras, aliás característico dessa parte do litoral e a praia de La Viuda, a direita.
É um povoado de cerca de 650 habitantes, em sua maioria pescadores e artesãos. No verão, transforma-se em um dos principais balneários do país, recebendo grande número de turistas argentinos, brasileiros e europeus.

 olhando a esquerda
 praia de La Viuda

 A Ruta 9 segue entre o mar e a Laguna Negra até Castillos, onde inicia a Ruta 16, entre o mar e a Laguna de Castillos. É uma estrada estreita, sem movimento e uma das poucas estradas mal sinalizadas.
Fui pela Ruta 16 (até Aguas Dulces) e depois Ruta 10 até o Parque Nacional de Cabo Polonio. Tinha curiosidade em conhecer o Cabo que é um dos lugares mais preservados do Uruguai.
Próximo à sua costa, localizam-se três pequenas ilhas que servem de morada para lobos marinhos: La Rosa, La Encantada e El Islote.
O povoado é cercado de dunas de areia, e há décadas tem sido um destino popular entre jovens argentinos e uruguaios.Cabo Polônio possui uma paisagem singular, com enormes dunas ao redor da cidade. O balneário dista cerca de 7 km da estrada, sendo seu acesso realizado apenas por cavalos ou por carros 4x4.
É necessário deixar o carro  no estacionamento na entrada do parque (130 pesos) e pagar o transporte até o povoado, feito em caminhões 4x4 que parece acabaram de sair da segunda guerra.
Não dei sorte pois estava chovendo muito e bastante frio. Aliás, foi talvez o dia que mais senti frio na minha vida, sem exagero. Como março ainda é verão, estava vestido apenas com um moletom, que ficou encharcado.
Com o mau tempo, nenhuma alma viva na vila e ainda tive de esperar duas horas (uma eternidade) para o transporte até a entrada do parque.

 beira do mar em Cabo Polônio, com o farol ao fundo - paisagem lunar
farol de Cabo Polônio (farol do Drexler)

Na música "12 segundos de oscuridad", Jorge Drexler (ganhador do Oscar) descreve o giro do farol de Cabo Polônio a guiar os navios que contornam o cabo (a volta completa leva exatos 12 segundos). A letra fez de Polônio um lugar famoso, mas não deu dimensão da paisagem que lá se encontra e merece ser visitada.
Já noite, com frio e fome, cheguei a La Paloma, cidade a 240 km de Montevidéu e tem cerca de 6 mil habitantes fixos, chegando a 40 mil no verão.
Tem a parte antiga e uma parte nova, em cuja avenida principal, Avenida Solari, existem muitos prédios novos, restaurantes, hotéis (caros)e casas de cambio.
Me hospedei no Hostel Ibirapitá, confortável, barato e limpo. Apenas não tem estacionamento fechado mas deixar o carro na rua em frente parece ser seguro.
farol de La Paloma

Outro dia, bem cedo, tomei a Ruta 15 até Rocha, onde tomei o café da manhã e segui pela Ruta 9 até Rocha, em direção a badalada Punta del Leste, onde tecnicamente termina a margem do Rio da Prata, junto ao mar.

saída de Rocha
 parada para o café da manhã

Pela ruta 9 cheguei a San Carlos, paradinha antes de Punta para fotos.
San carlos tem pouco mais de 30 mil habitantes e é, coo se espera, um lugar pacato e de pouco movimento.

 igreja na praça de San Carlos
 praça principal de San Carlos

De San Carlos a Punta del Leste a estrada é a ruta 39, que liga Aiguá, no interior do país, a Maldonado.
Punta é considerado um dos 10 balneários de luxo mais famosos do mundo e no verão a população chega a 200 mil habitantes.
Apesar da chuva do dia anterior e do frio da manhã, haviam muitos turistas e fila de ônibus de turismo na beira da Playa Brava, onde fica o Monumento al Ahogado.

Monumento al Ahogado
E é claro que me obriguei a tomar um banho de mar; afinal não é todo dia que se vai a Punta.
fazendo pose em Punta

Pela Ruta Interbalneária, são cerca de 130 km até Montevidéu. São estradas boas, bem conservadas, sinalizadas e com retas de dar sono.
A chegada em Montevidéu é de trânsito complicado,principalmente a partir da confluência com a Ruta 101, junto ao aeroporto de Carrasco, depois Avenida de Las Américas e Avenida Itália.
Nunca tinha chegado em Montevidéu de carro e fui seguindo a sinalização até o centro histórico, pela 18 de Julho, a rua principal da cidade.
O hotel que havia reservado fica na Canelones, três ruas abaixo da 18 de Julho, e tive de perguntar a um taxista como chegar ao endereço.
Montevidéu é uma cidade limpa, organizada e de gente educada.
Depois do check-in no hostel, deixei o carro numa garagem a uma quadra do mesmo e, mesmo com o desconto do hotel, paguei o equivalente a 80 reais para dois dias, um pouco salgado a meu ver.
Preferi andar a pé e de ônibus para conhecer a cidade, principalmente a parte antiga e o centro.
Nessa primeira tarde na cidade, desci a Avenida Paraguay até a rambla - rambla é um tipo de rua larga para pedestres, o nosso popular "calçadão".  Nas ramblas as pessoas fazem caminhadas, tomam chimarrão, levam crianças e os cães para passear, alguns pescam os namorados ficam esperando o por do sol.
 Pôr do sol na Rambla Helênica
Rambla Republica Argentina

A vantagem de ficar no centro é que fica fácil conhecer a parte antiga - e mais interessante - da cidade.
Me hospedei no Planet Hostel, na Canelones 1095, quase esquina com a Paraguay. É um hostel pequeno mas confortável e tranquilo, com diária atualmente de cerca de 30 reais e fica apenas a quatro quadras da rambla.

 Plaza Independencia, com prédio do governo ao fundo
 Palácio Salvo, que já foi o mais alto prédio da América
 Puerta de la Cidadela, porta original de entrada da cidade durante dominação espanhola
 Mercado del Puerto
Nesse primeiro dia conheci o centro histórico e no outro dia fiz o city tour com o Bus Turístico.
O Bus Turístico de Montevidéu oferece um circuito com 9 paradas em lugares turísticos e inclui um guia informativo da cidade em 8 idiomas. Você pode desembarcar em qualquer das paradas e depois da visita, dos passeios e das inevitáveis fotos, espere o próximo ônibus.

É uma boa forma de conhecer a cidade se você não tem muito tempo. Custa cerca de 40 reais e a saída é junto ao Mercado del Puerto, na cidade velha.

 interior do bus turístico
 Site para informações do bus turistico: http://www.busturisticomontevideo.com.uy/index.html
*
Uma das paradas fica na entrada do Jardim Botânico, próximo ao Prado, que é um local muito bonito e interessante de visitar. Depois de muitas voltas por bairros que normalmente o turista não conheceria, o bus desloca-se pela orla, passando pela praia de Pocitos e uma das paradas é no shopping Punta Carretas, antigo presídio atualmente um dos shoppings mais famosos da cidade.

entrada do Shopping Punta Carretas


Outra parada do bus turístico é em frente ao terminal Tres Cruces, no início da avenida Itália. Tres Cruces é o terminal rodoviário de Montevidéu e fica junto a um grande shopping.
Quem vem pela rua só vê o shopping pois o terminal fica no andar de baixo. Em frente ao terminal existem alguns restaurantes bons e baratos, onde pode-se comer chivitos com fritas a bom preço. 
 O chivito - pronuncia-se tivito - é um sanduíche de carne e outros ingredientes, geralmente coberto com molho de maionese e servido com batatas fritas, salada russa ou outro acompanhamento. Em alguns casos são grandes que dá para dividir para duas pessoas.
Almocei um chivito com café e depois fui a pé até o Parque Batlle, onde existe o famoso monumento à carreta.

monumento à carreta

 Ao  lado do parque fica o estádio Centenário, palco da primeira Copa do Mundo de futebol.
 Estádio Centenário
 Museu Naval
 Pocitos
 Parlamento do Mercosul
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 No dia 23 , bem cedo,  peguei estrada em direção a Colonia do Sacramento.
Abasteci o carro num posto Petrobrás, pensando que seria mais fácil, mas o funcionário do posto não sabia que tipo de combustível colocava, pois pensava que o carro era movido a óleo diesel, comuns em carros naquele país.
Importante saber que lá a gasolina é chamada de "nafta" e é importante pedir a SP, ou "sim plumbo" - sem chumbo - para evitar problemas no motor.
Se pedir gasolina eles confundem com "gas oil" que é como se pede óleo diesel.
Fiz uma parada junto à antiga estação de trens, majestoso prédio hoje abandonado.
Estación Central - abandonada
Quando criança eu lia nos livros de história sobre as Guerras Cisplatinas e tinha um desejo: conhecer Colonia do Sacramento, que era portuguesa e passou a ser espanhola no século 18. A cidade foi declarada Patrimônio Histórico da Humanidade em 1995 pela Unesco.
Colonia fica em frente a Buenos Aires, cada uma de um lado do Rio da Prata, e subindo no farol de Colonia, em dias de céu limpo é possível avistar a capital argentina.
 estrada para Colonia
 antiga estação de trem de Colonia
Catedral do Santísimo Sacramento, de 1680
 ruínas da antiga cidade, junto ao farol
 vista da cidade, da torre do farol
 Sim! aqueles pontinhos escuros no horizonte é Buenos Aires vista do farol de Colonia
 rua da cidade velha
 portão da cidade, com fosso, junto à muralha

Em Colonia, hospedei-me no Hostel Colonial, que recomendo. Fica na Gral.Flores 440, bem no centro, tem acomodações simples mas confortáveis e principalmente é barato, cerca de 12 dólares. Paguei 10 dólares com a carteirinha do HI, que pode ser feita ali mesmo, na chegada.
Em Colonia pode-se ir a Buenos Aires por barco - existem três empresas mas a mais famosa é a Buquebus -  http://www.buquebus.com/BQBWebV2/web/POR.Home
A saída é no porto, bastante moderno e bastante movimentado.
 porto de Colonia
Saí de Colonia pela Ruta 21, até Carmelo. Carmelo é uma cidadezinha pequena, junto ao rio Uruguai, sem muitos atrativos mas bonitinha.
Foi minha primeira parada neste itinerário previsto de fazer o litoral oceânico do país, o rio da Prata e subir a costa do rio Uruguai;.
Plaza de las Naciones em Carmelo
 entrada de Carmelo pela Ruta 21

Passei por Nueva Palmira e segui pela ruta 21 até Dolores, outra pequena cidade uruguaia, as margens do rio San Salvador, afluente do rio Uruguai.
Naquele dia acontecia na praça principal uma feira bastante interessante; a população recolhe objetos de que não mais necessita e disponibiliza para venda em praça pública.
igreja na praça de Dolores
 Esta região do Uruguai caracteriza-se pela agricultura, sendo conhecida como região "granera del Uruguay".
De Dolores a Mercedes, ainda pela Ruta 21.
Mercedes tem cerca de 40 mil habitantes e situa-se à margem esquerda do Rio Negro, afluente do Uruguai.
 porto de Mercedes
 praça com coreto
Após lanche à beira do rio Negro, num parque junto ao porto, segui viagem agora pela Ruta 2, até Fray Bentos, junto ao rio Uruguai.
Fray Bentos tem cerca de 2o mil habitantes e a sua importância se dá pela ponte internacional que liga à cidade de Gualeguaychú, na Argentina.
Decidi não parar na cidade e seguir direto para a fronteira, sendo que o trabalho da imigração foi rápido e eficiente. O único "senão" foi que o funcionário da alfândega argentina não me entregou a "tarjeta" que depois gerou problemas na volta, como conto depois.
A diferença das aduanas é que no lado uruguaio os funcionários são civis e na Argentina o controle é do Exército.
Gualeguaychú é uma cidade grande, com cerca de 80 mil habitantes e é famosa pelo carnaval.
 praça no centro da cidade, com Prefeitura ao fundo
 Catedral de Gualeguaychú

De Gualeguaychú optei por seguir pelo interior da Argentina, pela estrada 13 até Concepción del Uruguay. A estrada é excelente, com duas pistas e velocidade limitada a 120 km/h.
Concepción del Uruguay, ou simplesmente Uruguay, tem cerca de 70 mil habitantes e um dos portos mais movimentados da Argentina.
Também tem grande movimento de turistas, principalmente no verão, por conta das prais do rio Uruguai.
 praça no centro
Catedral da cidade
 pausa para o famoso café com media-lunas - La Quadra, café que recomendo, na esquina da praça central

De Concepción retornei ao Uruguai por Colón.
Colón é uma pequena cidade junto ao rio Uruguai e tem uma infraestrutura boa para o turismo, por conta das prais fluviais.
Interessante são as obras de arte na rua e algo que nunca tinha visto; as árvores nas ruas, quando estão velhas e secas, são trabalhadas por artistas e se tornam obras de arte vivas.
  uma árvore escultura
 obras de arte em praça de Colón
Aí perdi muito tempo na aduana porque, como disse anteriormente, o funcionário da aduana argentina em Fray Bentos não me entregou a "tarjeta" que me foi cobrada na saída.
Depois de muita explicação e tentativa do soldado de me extorquir alguns - pediu 120 dólares - pedi para falar com um superior e apareceu um coronel que apenas verificou no computador o registro de minha entrada no país e liberou a passagem. 
Como já era tarde, decidi não chegar em Paysandú, pegando a Ruta 3 direto a Salto.
Salto é uma cidade grande, a terceira maior do Uruguai, com mais de 100 mil habitantes e isso se deve principalmente pela represa de Salto Grande.
A noite, é grande o número de pessoas deslocando se pela "rambla costanera" , principalmente jovens que se aglomeram para beber e namorar ou simplesmente passear de carro pelo local.
O movimento de veículos na rambla é tao grande que se faz necessário a presença de agentes de trânsito para organizar e controlar o fluxo.
O hostel que havia reservado não tinha vaga; por um erro a reserva não havia sido feita e saí em busca de hotéis.
Não consegui encontrar hotel, exceto um hotelzinho no centro onde queriam cobrar 100 dólares por noite. Achei absurdo e procure outra solução.
Por indicação do frentista  de um posto de combustíveis, procurei as "termas", fora da cidade. A cidade de Salto tem muitas estações de águas termais que sempre estão lotadas.
O problema foi que só aceitavam estadia por no mínimo três dias.
Voltei à cidade e à rambla e perguntei a um policial sobre existência de camping na cidade. Ele me falou que não sabia de camping mas que no final da rambla havia uma área pública para acampar.
Aí que me serviu a barraca e o saco de dormir que trouxe no carro.
O local é usado por pescadores que acampam na beira da represa, e não tem muita estrutura, apenas sanitários, torneiras e tanques para lavar roupa.
Mas foi tranquilo dormir à beira da represa, apesar da noite fria.
 acampado à beira da represa, em Salto

Acordei cedo e procurei um lugar para tomar café; incrível como no Uruguai é difícil de encontrar café e quando encontra, não é bom.
Decidi então passar para o lado argentino, onde está a cidade de Concórdia. A passagem da fronteira se faz pela barragem da represa, que faz as vezes de ponte internacional.
 barragem/ponte internacional
 estrada sobre a represa

Pensei que chegando cedo da manhã não teria movimento na aduana mas não dei sorte; além do movimento normal, chegaram na minha frente dois ônibus de turistas e perdi cerca de hora e meia na fila.
Concórdia é uma cidade grande, com mais de 150 mil habitantes, mas com jeito de cidade interiorana.
Encontrei  uma cafeteria para a dupla café/media lunas e caminhei pelo centro da cidade.
 praça no centro de Concórdia
 museu Arrubarrena
 calçadão no centro

Em Concórdia, bastante interessante é uma rua para pedestres, no centro, onde existem várias esculturas, de vários estilos e materiais, como uma galeria a céu aberto.
Na volta para Salto mais um contratempo; depois de liberada passagem na alfandega, a Polícia federal Argentina solicitou uma revista no meu carro.
Acredito que a desconfiança deles partiu do princípio de que um homem, sozinho, com um carro com placas de Porto Alegre, vindo da Argentina para o Uruguai, poderia estar transportando algo, como drogas.
Durante cerca de 40 minutos revistaram o carro, verificando inclusive atrás do painel, sob os bancos e carpete e até batendo na lataria para verificar possível ruído diferente que poderia indicar algo escondido.
Fiquei preocupado porque nunca se sabe o que estão planejando; podem "plantar" algo e ficaria preso por lá. Mas tudo certo, agradeceram e mandaram seguir viagem.
Depois de um "ufa!", cruzei novamente a represa para o lado uruguaio.
Poderia seguir pela Ruta 3 até Barra do Quaraí, no Brasil, mas resolvi entrar pelo interior, pela Ruta 31, passando por Taquarembó e saindo depois por Rivera.
Taquarembó é a cidade natal de Carlos Gardel, que muitos pensam erroneamente ser argentino. 
Fiquei maravilhado com as cores da árvores das ruas da cidade.
 o colorido das árvores no centro de Taquarembó



Pela Ruta 5,  parti em direção a Rivera e a volta ao Brasil pela pior estrada - talvez - que já passei. Não pelo estado do asfalto, as vezes ruim claro, mas pelo traçado da mesma, com inúmeras curvas que as vezes são como uma esquina.
Em uma curva, a 50 km por hora saí da estrada, tal o ângulo da mesma.
E por mais de 150 km só se vê campos e mais campos; nenhuma casa, árvore, posto de gasolina ou sequer um lugar pra parar e descansar.
 uma das poucas retas na estrada vazia
Na verdade, sendo região de pecuária, esperava ver bois e ovelhas mas só vi avestruzes.É uma região abandonada por completo, sendo que as sedes das fazendas estão longe da estrada. Em cerca de 100 km só encontrei um carro em sentido contrário.
Algumas pontes são estreitas, passando apenas um carro por vez. Em determinado local existe uma placa que avisa: estrada com muitas curvas por 27 km. E é verdade: 27 km de curvas onde não é possível rodar a mais de 50 km/h e mais parece um autódromo de tantas curvas e trocas de marcha.
Em uma dessas curvas, passei tão devagar que valeu a pena; vi um lugar  bastante interessante, um riacho que passa sob uma pequena ponte e tive de retornar, abandonar o carro na estrada e entrar no campo para fotografar. Um lugar muito bonito. E selvagem.

Só melhorou quando entrei na 27, já quase em Rivera.
Cheguei em Rivera a noitinha mas ainda deu tempo de fazer algumas compras e seguir em frente, rumo a Porto Alegre, abaixo de um temporal com relâmpagos que clareavam a estrada.