A viagem de Munique à Paris de trem dura uma noite toda. Existem trens rápidos mas são bem mais caros e a idéia era exatamente chegar ao amanhecer. Para chegar descansado optei pelo carro dormitório e depois descobri que não era grande vantagem.
Dividir uma cabine com mais tres pessoas tira a privacidade da gente e convenhamos, é complicado dormir num beliche numa cabine pequena com tres estranhos, incluindo uma mulher.
E quando não tinha mais sono fui obrigado a ficar em pé no corredor, olhando a paisagem porque os companheiros de cabine continuaram a dormir até o fim da viagem.
Outra questão é que quase todos optam pelas cabines e descobri que os carros comuns tinham poltronas confortáveis e estavam quase vazios; dava pra dormir tranquilo ocupando duas poltronas. Aprendizado para outra viagem...
Chegamos na Gare de l'Est as seis da manhã. Primeira providencia tomar um café e depois encontrar o hostel; como as diárias dos hostels geralmente iniciam ao meio-dia, resolvi deixar a mochila na estação e caminhar um pouco nas redonzezas. Primeira vez que vejo algo semelhante: para colocar a mochila no armário alugado antes é necessário passar pelo raio-x, coisas do pânico dos europeus por terrorismo.
Ao sair da estação, pensei ter errado a cidade; No Boulevard Magenta, Boulevard de Strasbourg e outras ruas próximas à estação, pensei estar em algum lugar da África, pois só vi africanos por todo o lado. Aquela região do 10° Arrondissement é tomada por imigrantes.
Aproveitei toda a manhã para conhecer as redondezas e me familiziar com o sistema de transporte, principalmente o metrô. Próximo do meio dia fui para o hostel onde fiz check-in, guardei a mochila e fui à rua.
Escolhi o hostel antes de viajar pelo preço e por estar próximo à estação do metrô; dei sorte pois era bom hostel e bem localizado mas não tinha me dado conta até chegar lá. Vários pontos que havia anotado como imperdíveis para visitar estavam bem ali; o Sacré Coeur, o Moulin Rouge e o próprio bairro de Montmartre, famoso nas obras de Van Gogh.
Primeiro passeio na cidade, conhecer o Sena, a Notre Dame e toda aquela região do 3° e 5º arrondissement - Arrondissement é o nome dado às 20 divisões administrativas da cidade de Paris, contadas do centro, em espiral, no sentido dos ponteiros do relógio.
Além da catedral, que tem mais de 850 anos, Jardim de Luxemburgo, Pont Neuf, Les Halles, Jardin des Tuilleries, Museu d'Orsay, Museu do Louvre são algumas das atrações daquela área; também a Pont des Arts ou Ponte dos Cadeados, onde os casais costumam deixar um cadeado com seus nomes nas grades da ponte e jogar a chave no Sena. São muitos cadeados, milhares, e, pena, eu não tinha um para deixar lá...
No outro dia acordei cedo e resolvi visitar a Sacré-Coeur antes que enchesse de turistas. A Basílica de Sacré-Coeur é um templo da Igreja Católica, construída no século XIX, e está situada no monte Martre, ponto mais alto da cidade. Tem uma ótima vista da cidade. Lembrei dos "Telhados de Paris", música do Nei Lisboa.
Depois de metrô até a estação Bir-Haiken que é a mais próxima da Torre Eiffel mas antes de ir à torre resolvi caminhar um pouco pelo bairro que foi cenário do filme Ultimo Tango em Paris.
Não adianta ser viajado e ter visto fotos, a primeira visão da torre é emocionante, mesmo entre as árvores do parque de Champ de Mars. Claro que a gente fica bobo com aquela imensa e famosa construção de ferro e a tendência é fotografar de todos os ângulos possíveis. Inclusive atravesse a Pont d' Léna - em frente a torrre - e desci uma escadaria para fotografar de outro ângulo, as margens do Sena.
Depois fui até a Esplanada do Trocadéro, de onde se consegue as melhores fotos da torre, com certeza, além da beleza dos jardins do Trocadéro e suas fontes.
Dali poderia ter ido a pé até o Arco do Triunfo mas não conhecia ainda a cidade então fui de metrô até a estação Kléber, próximo do arco. A famosa avenida Champs- Élysées começa ali na praça Charles de Gaulle e foi por ela que me aventurei, passando por lojas de grifes como M&S, Lacoste, Cartier, Louis Vuitton, enfim, o paraíso da mulherada, nem que seja só pra olhar. Para os marmanjos, tres lojas interessantes, da Renault, Peugeot e da Mercedes-Benz. Nesta última fui obrigado entrar para olhar os bólidos ali expostos, carros de rally e de fórmula.
Na loja da Peugeot chama a atenção um protótipo futurista. Aliás, falando de carros, algo que só poderia ser visto ali: estacionados juntos tres Ferrari e duas Lamborghini. Sonho!
Quando voltei ao hostel, a tardinha, passei no Carrefour e comprei um lanche. No refeitório encontrei um carioca que havia conhecido na noite anterior e ele estava cozinhando e conversando com uma moça portuguesa. Conversamos sobre os passeios e me falaram que ainda não haviam conhecido a torre.
Falei que tinha lido que a torre a noite era muito linda mas não queria andar a noite sozinho. Arrumei companhia; os dois se interessaram e depois de jantar, pegamos metrô e fomos até o Trocadero, onde a vista noturna da torre é fantástica. Antes passamos num bar e compramos duas garrafas de vinho.
Entre conversa e fotos, o rapaz começou a chorar e explicou dessa forma: tanta gente nem sabe o que é isto e me sinto privilegiado por poder compartilhar esse momento; E repetia: isso não tem preço!. Tive de concordar com ele: tomar um vinho nos jardins do Trocadero, olhando a Torre Eiffel iluminada, com Paris ao fundo, não tem preço. É um privilégio para poucos.
Dali fomos a pé até o Arco do Triunfo, caminhamos pela Champs Élysées e voltamos ao hostel para dormir. Era tarde e o outro dia era de mais passeios.
Dia 8, bem cedo, metrô à estação Paris Saint Lazare e trem RER linha C para Versailles. São 20 minutos até a estação Versailles Gauche e dez minutos a pé até o Castelo. Foi um pouco complicado porque saí de Paris com sol e cheguei em Versalles com chuva. Chuva fina mas chata.
O Palácio de Versalhes é um castelo real localizado na cidade de Versalhes, uma aldeia rural à época de sua construção, mas atualmente um subúrbio de Paris. Desde 1682, quando Luís XIV se mudou de Paris, até a família Real ser forçada a voltar à capital em 1789, a Corte de Versalhes foi o centro do poder do Antigo Regime na França.
Considerado um dos maiores do mundo, o Palácio de Versalhes possui 2.153 janelas, 67 escadas, 352 chaminés, 700 quartos, 1.250 lareiras e 700 hectares de parque. Famoso por muitos motivos, foi residencia de vários reis como Luis XIII, Luis XIV e o mais conhecido, talvez, Luis XV e também por ser residencia de Maria Antonieta, a última rainha da França. Ali também foi assinado o documento do fim da primeira guerra.
Cheguei à conclusão de que não tinha muito tempo e desisti de conhecer o palácio por dentro; mesmo porque não sou muito interessado em visitar esse tipo de lugar. Resolvi caminhar pelos jardins, que são muito lindos e são praticamente iguais quando foram construídos.
E a chuva continuava e já estava ficando tarde, resolvi voltar à Paris.
Outro perrengue: o cartão do BB não funcionou para sacar dinheiro, exatamente quando estava tentando comprar roupas de inverno na Decathlon da estação Madeleine. Solução, ligar para o Brasil, para o BB, e tentar solucionar. No horário bancário já é complicado, imagina fora de horário tentar alguma coisa. Não consegui transferir grana da conta e já estava desistindo quando a atendente disse que poderia liberar o cartão da conta para sacar em qualquer banco. Ora, se isso é possível, porque não me disseram aqui, antes de viajar? Mas aí já estava no hostel e desistido das compras.
No outro dia, sábado, fui conhecer outros lugares. Não tinha intenção de ir ao Louvre, mas em conversa com minha filha ela me disse que ir a Paris e não ver a Mona Lisa não tinha graça. Concordei e fui até lá; tem uma estação do metrô no sub-solo do museu, o que facilita bastante.
Visitar o Louvre requer um dia inteiro e não me dispunha a isso então fui direto ver a Mona Lisa e depois algumas outras obras interessantes. Depois caminhei pelo jardim do Louvre que é bonito também.
Saindo do museu, segui caminhando pelas ruas, conhecendo outros lugares bastante interessantes. Fui até as Arenas de Lutéce, anfiteatro do século I, pouco visitadas pelos turistas,
Queria visitar o Panthéon, onde se encontra o Pendulo de Foucault, mas havia um aviso de que estava em obras e o Pendulo só reabriria para visitação dentro de dois anos (!). Ali também existem vários prédios interessantes, como a Faculdade de Direito de Paris, o Instituto Curie, várias outras universidades como a Sorbonne.
No outro dia bem cedo fui novamente à Eurolines e estava fechada mas tinha um cartaz com outro endereço, próximo da Sorbonne. Lá fui eu outra vez até até a estação Cardeal Lemoine e o escritório da Eurolines de lá também estava fechado. Não me restou alternativa a não ser voltar ao hostel, descansar e resolver o problema no outro dia.
Outro perrengue?
Dia 11 de novembro, segunda-feira, acordei cedo e fui à Eurolines novamente. Cartaz na vidraça: fechado. Ora, fechado numa segunda? Procurei saber o que estava acontecendo e descobri que era feriado na França. No dia 11 de novembro a França comemora um de seus feriados nacionais mais importantes: o Dia do Armistício, que celebra o fim da Primeira Guerra Mundial.
Perdi um dia que poderia estar passeando, procurando formas de viajar. Depois de muitas tentativas, voltei ao hostel, arrumei mochilas, fui almoçar e voltei à Eurolines procurando descobrir algo naquele cartaz. Não achei nada mas tinha outro cartaz menor, dentro da loja, com um mapa dos escritórios da empresa. Vi então que tinha outro escritório próximo da estação Gallieni, da linha 3 do metrô, última etação que já é quase fora da cidade.
Claro fui até lá e, surpresa! Era um terminal da Eurolines, de onde saíam os ônibus. Comprei passagem para seis da tarde e só tive tempo de sair correndo, ir ao hostel buscar a mochila e cheguei de volta ao terminal uma hora antes da saída do ônibus, o suficiente para fazer um lanche.
Terminava o passeio por uma das minhas cidades preferidas. Que venha a Inglaterra!




