Viajantes...

A viagem não acaba nunca. Só os viajantes acabam. E mesmo estes podem prolongar-se em memória, em lembrança, em narrativa. Quando o visitante sentou na areia da praia e disse: “Não há mais o que ver”, saiba que não era assim. O fim de uma viagem é apenas o começo de outra. É preciso ver o que não foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na primavera o que se vira no verão, ver de dia o que se viu de noite, com o sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aqui não estava. É preciso voltar aos passos que foram dados, para repetir e para traçar caminhos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre.

José Saramago

domingo, 1 de junho de 2014

Última parte do relato de minha viagem pela Europa, em outubro e novembro de 2013.
Viagem tranquila com o confortável ônibus da Eurolines; na verdade imaginava que os ônibus na Europa seriam melhores, já que até no Peru e Bolívia são servidas refeições a bordo e os ônibus têm canais de música e filmes. Mas não, inclusive não fazem paradas para lanche. Diferente do carro da ALSA, que viajei de Barcelona para Milão, que parou por dez minutos para comprar lanches. No meio da viagem precisei ir ao banheiro e falei com o motorista; ele parou num local de parada de caminhões para que pudesse usar o banheiro.
Problema foi antes do Eurotunel. Na aduana francesa apenas carimbaram passaportes e fomos liberados. Vinte metros depois, a aduana inglesa. Aí tivemos de desembarcar com todas as bagagens que deveriam passar pelo raio-x. Todos foram liberados, exceto os brasileiros, eu e uma senhora com a filha que estava indo estudar em Londres.
Tivemos de preencher um longo questionário e depois passar por uma sessão de perguntas. Para mim perguntaram muitas coisas e a mulher queria saber por que eu estava viajando, se tinha parentes lá, se tinha família no Brasil e quando parece esgotaram as perguntas ela lascou: Mas por quê resolveu viajar? Dá vontade de dizer umas bobagens.
Carimbos no passaporte, todos liberados, mas... e o ônibus? A Eurolines é uma empresa que atua em vários países e o ônibus que viajávamos era da Espanha, assim como o motorista. Frio de rachar e tivemos de esperar na rua enquanto o carro era revistado. Nunca tinha visto coisa igual; veio uma equipe do que suponho seja a polícia federal deles e examinaram o carro todo. Com chaves de fenda, retiraram os alto-falantes e parte da forração do ônibus.
Tão ridículo que um dos policiais insistiu para abrir a descarga do depósito do banheiro do carro; o motorista disse como abrir, ele fez, e derramou toda aquela porcaria na via. Depois ficou chamando pelo rádio, pedindo ajuda para que o local fosse limpo. E dando explicações, pelo que entendi.
Depois de praticamente desmontarem o ônibus e montarem de novo, finalmente continuamos viagem.
Aí vem a passagem pelo Eurotunel. O Eurotunel é um túnel ferroviário de 50,5 quilômetros de extensão que liga Folkestone, no Reino Unido, com Coquelles, perto de Calais, no norte da França, sob o Canal da Mancha no estreito de Dover. No seu ponto mais baixo, atinge 75 metros de profundidade, com um trecho submerso de 37,9 km.
Como funciona: um trem estaciona e todos os veículos acessam por uma porta e se posicionam dentro dos carros totalmente fechados. Na chegada, todos saem em fila indiana, na mesma ordem de entrada. A saída do túnel fica cerca de 120 quilômetros de Londres.


interior do trem do Eurotunel

Chegamos a Londres a tardinha, mas já escuro, no terminal Victoria Coach Station, que fica a cerca de cinco quadras do Palácio de Buckinghan; não confundir com a estação Victória, que é terminal de trens e metrô e fica a duas quadras dali.
Mais perrengue? As casas de câmbio todas fechadas pois já passava de seis da tarde. Sem libras não é possível sequer pegar o metrô. Sorte minha que tinha um terminal bancário, de um banco que desconheço, mas arrisquei com meu cartão do BB e consegui sacar dinheiro suficiente para ao menos pegar o metrô. Um casal que viajava conosco resolveu passar a noite ali, à espera do outro dia e da abertura da casa de câmbio. Como não tinham reservado hotel, sugeri que fossem comigo ao hostel que tinha reservado e eu pagaria o metrô mas não aceitaram. Bom, tentei ser como sou, sempre prestativo; fiz minha parte.
Peguei o metrô - em Londres chamado de Underground ou carinhosamente "tube", na estação Victória até a estação Oxford Circus onde troquei para a Bakerloo Line - interessante o por quê de se chamar Bakerloo: porque passa nas estações Baker Street e Waterloo - e desembarquei na estação Kensal Green, onde tinha como ponto de referencia para o hostel reservado.


estação Kensal Green - ao fundo o prédio do hostel 639

Já imaginava a mesma coisa de sempre, andar por lugar desconhecido, com mochilas pesadas, procurando um endereço. Foi o mais fácil de toda a viagem: o hostel ficava na frente da estação, do outro lado da rua. Muita explicação: primeiro porque eu tinha reservado para dia 10 e já era 11; expliquei que tive problemas em Paris para conseguir transporte. Depois não aceitavam euros nem dólares e hostel sempre o pagamento é feito no check-in; expliquei que a casa de cambio estava fechada. Como tinham sobrado algumas libras, paguei uma diária e o restante no outro dia.
Só consegui lugar porque prometi pagar a diária que eu tinha reservado e não comparecido; ainda bem que tinha lugar porque ter de sair dali para procurar outro hostel seria complicado. Embora ficasse cerca de 10 quilômetros do centro de Londres, achei muito bom o lugar, já que facilita ter uma estação de metrô próximo. Banho e dormir para descansar.
Como tinha previsto cinco dias em Londres e já tinha perdido um dia em Paris, precisei me organizar para cumprir meu roteiro. Decidi cortar a visita a Stonehenge, mas hoje penso que deveria ter ido.
Manhã cedo fui conhecer o Palácio de Buckinghan mas resolvi não esperar aquilo que todo turista espera, a troca da guarda.


frente do Palácio de Buckinghan

Saí caminhando pela cidade, seguindo o Tâmisa, até o Parlamento. Ali tem muita atração para turista; o Parlamento e o Big Ben, a Abadia de Westminster, a London Eye, o Parque St. James e outros lugares interessantes.


 Tâmisa

London Eye

Resolvi comprar um lanche no Tesco, mercado que fica junto da estação Westminster, e comer ali mesmo, frente ao Big Ben.


Big Ben

Depois fui conhecer o Shard London Bridge, maior edifício da Europa, passei pelo The Monument, que é uma torre de pedra de 61 metros de altura erguida para lembrar o grande incêndio de Londres de 1666, que queimou grande parte da cidade, e caminhei até a Torre de Londres.


 Shard London Bridge

The Monument

Quando ouvimos Torre de Londres, vem à memória a ponte da torre mas é muito mais que isso; são vários prédios ou "torres", formando um conjunto arquitetônico cuja construção iniciou em 1078.  Sua função era residencial até meados do século XVII e, até hoje, possui o papel de abrigar os monarcas que são coroados. Mas a sua função variou com o passar dos séculos. Também serviu como local de execução e tortura; a frase "sent to the Tower" (mandado para a Torre), significava ser aprisionado. É também na Torre de Londres que as jóias da Coroa Britânica ficam guardadas em uma camara subterrânea. E como parte do conjunto a ponte da torre, cartão postal da cidade.


 Torre de Londres

símbolo da cidade

De metrô fui conhecer Picadilly Circus, outra atração de Londres. Além do colorido dos anúncios a decoração de natal já estava montada e iluminada. Ali existem várias lojas que chamam a atenção de qualquer turista, o Planet Hollywood. uma enorme loja Mundo da M&M's, Cine Odeon, o museu Ripley's (Acredite se quiser) e lojas de departamentos onde comprei algumas lembrancinhas - presentinhos.


Picadilly Circus a tardinha, com decoração de Natal

Já era noite, retornei ao hostel cansado; o dia rendeu bastante.
No dia 13 comecei o dia conhecendo a Baker Street - rua do Sherlok Holmes - e depois fui à St John's Wood conhecer o estúdio Abbey Road e a famosa faixa de segurança imortalizada na capa do disco Abbey Road dos Beatles. Além dos Beatles, Fred Astaire, Glenn Miller, Pink Floyd, Oasis e U2 entre outros gravaram em Abbey Road.
Como cheguei cedo, pensei ser apenas um bobão fotografando uma esquina mas de repente a rua ficou cheia de gente fazendo pose para fotos, sempre que o trânsito diminuía.


a mais famosa faixa de segurança - Abbey Road

Dali fui conhecer o bairro de Nothing Hill; lembra do filme?


Nothing Hill

 Depois trem até Wembley. O metrô tem 12 linhas e a cidade é divida em seis zonas e cada zona tem um valor de tarifa. Onde termina uma linha do Underground tem o trem de subúrbio, chamado de Overground. Fui então até Kensal Green e tomei o trem para Wembley.


Estádio de Wembley a noite

Caminhei bastante para chegar ao mítico estádio de Wembley e depois de muitas voltas pela região parei para comer; depois trem novamente para o hostel porque já era noite.
No outro dia fui à região de Waterloo apenas para caminhar sem destino, almocei e retornei ao hostel porque deveria estar no aeroporto as três da tarde.


caminhando por Waterloo

Metrô até a estação Paddington e trem para Heatrow. O trem deixa dentro do aeroporto e cometi uma gafe; comprei passagem para o aeroporto e peguei o Heatrow Express, mais rápido - e mais caro - sem saber que não era aquele; tive de pagar a diferença no trem.
Chegando no aeroporto- outro perrengue? - fui direto ao balcão da Lufthansa e fiquei sabendo que tinha sido trocado meu vôo e, teoricamente, eu estava atrasado. A moça disse que haviam enviado e-mail informando. Fiquei preocupado porque aqui no Brasil você perde o vôo e é problema seu. Expliquei que não recebi e-mail porque estava em viagem e funcionária consultou o computador e perguntou se teria problema de ir por Frankfurt, em vez de Munique como era previsto.
Claro que não, o importante era embarcar. Cartão de embarque na mão e tudo resolvido. Diferença enorme; no Brasil já perdi vôo por ter chegado no chek-in menos de uma hora antes, sem direito a reclamar. 
Lá, além de resolver o problema de forma eficiente, a funcionária da Lufthansa foi sempre educada e simpática, inclusive me acompanhando depois até a área de check-in, indicando por onde deveria ir.
No check-in, depois de passar pelo raio-x, me fizeram passar a outra sala onde novamente passei pelo raio-x, com uma máquina diferente. O funcionário do aeroporto insistia que aparecia no raio-x alguma coisa de metal no meu braço direito. Que eu saiba, não tenho nada de metal  no braço e só depois de algum tempo fui liberado.
Ai foi só comprar chocolate no Free Shop e embarcar para o vôo de volta.
De Londres a Frankfurt de Airbus e de Frankfurt a São Paulo realizei um sonho, voar de Jumbo. O 747 é impressionante, como um prédio de dois andares e você imagina que aquilo não vai decolar devido tamanho e peso.


Jumbo

Viagem tranquila, janta com vinho branco alemão e soninho. Acordei já quase em São Paulo. Aí depois era esperar o vôo da Gol mas como teria de esperar cerca de seis horas, consegui trocar para outro vôo mais cedo e à noite estava em Porto Alegre.
Terminava ali uma  aventura cansativa mas que valeu a pena e dá saudades.