Viajantes...

A viagem não acaba nunca. Só os viajantes acabam. E mesmo estes podem prolongar-se em memória, em lembrança, em narrativa. Quando o visitante sentou na areia da praia e disse: “Não há mais o que ver”, saiba que não era assim. O fim de uma viagem é apenas o começo de outra. É preciso ver o que não foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na primavera o que se vira no verão, ver de dia o que se viu de noite, com o sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aqui não estava. É preciso voltar aos passos que foram dados, para repetir e para traçar caminhos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre.

José Saramago

terça-feira, 27 de maio de 2014

Tour Europa - Primeira parte: Portugal, Espanha e Itália

Vou fazer aqui um breve relato de minha viagem à Europa, em outubro e novembro de 2013. Mas não esperem detalhes de passeios, onde comer, o que ver, etc.; isso é comum em sites e blogues de mochileiros.
Vou apenas comentar sobre o roteiro, coisas interessantes, perrengues e aquilo que vi e acho que vale a pena compartilhar.
Entre a opção de visitar poucos lugares e esmiuçar os locais e fazer um verdadeiro bate-volta por várias cidades, escolhi a segunda opção, pois poderia ir a mais cidades e ver mais lugares que queria. Torna-se um tanto cansativo pelos deslocamentos, check-in e check-out nos hotéis, passagem pela imigração, etc., mas foi a opção escolhida e não me arrependo.
Estando já aposentado e muito chateado com algumas coisas que haviam acontecido, resolvi pedir demissão do emprego.
Fato imediato, fui buscar informações na internet e montar um roteiro para viajar à Europa, sonho antigo e que agora parecia mais próximo.
Primeira coisa, buscar passagens aéreas baratas e encontrei para outubro, outono na Europa e, portanto, baixa temporada.
Comprei passagem, com saída de São Paulo (mais em conta), reservei os hostels pelo Booking.com e comprei também a passagem para São Paulo pela GOL.
Malas prontas, embarquei par São Paulo no dia 07 de outubro, dez da manhã, chegando em SP próximo ao meio dia. Já havia reservado também um hostel em SP, a quadra e meia do metrô Parada Inglesa. A proximidade com o metrô em SP é importante para facilitar os deslocamento, principalmente quando temos mochilas grandes e pesadas.
Depois de instalado no hostel, fui à avenida Paulista onde peguei um cartão Visa Travel da Confidence, com créditos em euros, e comprei um livro de fotografia, para ler na viagem.
A passagem era São Paulo - Lisboa, com escala em Munique, no horário de 16:50 e, portanto, deveria estar em Guarulhos as 13 horas. Almocei e as 12 :30 já estava em Cumbica.
Vôo partindo no horário, em Airbus da Lufthansa lotado.
O atendimento da Lufthansa é muito bom, embora já tenha lido na internet reclamações sobre a companhia. Nada a reclamar, comissários atenciosos e refeições bem preparadas, acompanhadas de um bom vinho branco alemão.
Chegada em Munique no outro dia cedo. Impressionante o tamanho do aeroporto de Munique; quase uma hora subindo e descendo escadas e andando por corredores para trocar de terminal e de aeronave.De lá a Lisboa um avião menor da mesma companhia, com o mesmo bom atendimento.
Na imigração, o alemão perguntou apenas "Lisbon?" e respondi que sim e já estava carimbado meu passaporte. Tudo mais fácil do que eu imaginava; pensei que seria bastante complicado e cheio de explicações para ser liberado.
Chegando à Lisboa

Chegada a Lisboa próximo de uma da tarde e tudo facilitado porque existe uma estação do metrô de Lisboa junto ao aeroporto. De metrô até a Av. da Liberdade onde localiza-se o hostel. A vantagem de chegar por Lisboa é a língua e ainda fui recebido no hostel por uma brasileira que lá trabalha. Fácil para pedir informações sobre onde comer e passeios a fazer.
Esse tipo de viagem excita bastante e é claro que só guardei as mochilas no armário, tomei um banho, troquei de roupa e fui para a rua.
Caminhei todo o resto do dia, conhecendo o centro histórico e resolvi depois pegar o ônibus turístico, forma mais fácil de se deslocar pelos pontos turísticos.
Tive tempo de ir ao Castelo de São Jorge, de onde a vista de Lisboa é fantástica e depois desci o morro da forma mais tradicional, de bondinho.
 Castelo de São Jorge 

 Cidade vista do Castelo

 Centro de Lisboa

Bondinho

Depois fui ao Mosteiro dos Jerônimos, Marco dos Descobrimentos  de onde saiam os navios para descoberta de novas terras, incluindo o Brasil - Torre de Belém, ponte 25 de Abril e outros pontos obrigatórios para o turista em Lisboa.
Mosteiro dos Jerônimos

 Monumento aos Descobrimentos

 Torre de Belém

Ponte 25 de Abril

Não quis sair a noite pois não conhecia o lugar o suficiente para me aventurar; jantei cedo, um salmão com molho de camarão e vinho do ALgarve para acompanhar (delícia) -  e voltei ao hostel.
No outro dia, dia 10, a noite eu já estaria viajando para Madrid e procurei fazer o dia render ao máximo, para isto acordando cedo.
Pela manhã, de trem, fui a Cascais, um lugar maravilhoso.


Cascais

Depois metrô até a estação Oriente para conhecer a ponte Vasco da Gama, Doca dos Olivais, Parque das Nações, Oceanário de Lisboa e outras atrações da orla.


ao fundo, ponte Vasco da Gama

Depois estação do Rossio e trem até Sintra; são só 28 km e os trens partem a cada 20 minutos.
Sintra é um lugar espetacular, que eu tinha muita vontade de conhecer. Como tinha passagem comprada para Madrid, tive de voltar cedo da tarde  não pude visitar o Castelo dos Mouros, me contentando em ver a distancia e também os vários castelos da cidade.


Castelo dos Mouros - Sintra

Retornei fim da tarde somente a tempo de pegar as mochilas no hostel e deslocar até a estação Santo Apolônio para rumar a Madrid.

Viagem de trem durando toda a noite e chegando em Madrid no início da tarde. Mesma rotina de pegar metrô e procurar o hostel, tomar banho, trocar de roupa, guardar as mochilas e procurar lugar pra comer.
Nesse tipo de viagem, como já escrevi, perde-se tempo demais deslocando-se aos hostels e saindo deles mas é inevitável.
Assim que pude fui caminhar pela cidade, pelo centro histórico, a pé que é a maneira mais gostosa de conhecer um lugar e sua cultura.


Palácio Real

No outro dia, bem cedo, resolvi utilizar o bus turístico e visitei o Palácio Real, várias outros pontos e inclusive uma Plaza de Toros.
Não dá pra ir à Madrid e não assistir uma tourada, é o que dizem. Como sou contra as touradas, fiz uma visita a uma Plaza de Toros, paguei ingresso, entrei mas não assisti a tourada. Na verdade entrei no final de uma apenas para ver o ambiente interno e dei azar porque foi bem no momento em que o toureiro abate o touro. Sai dali chateado e nauseado com aquilo.

 frente à Plaza de Toros

 Plaza de Toros; lotada mesmo sendo dia de semana

Voltei ao centro onde visitei a interessante Plaza Mayor, uma praça bem no centro, rodeada de construções em arcos, onde existem muitos restaurantes e onde ocorrem manifestações artísticas. Nesse dia havia uma apresentação com cavalos amestrados.


Plaza Mayor

Depois de rodar pela cidade cheguei à conclusão de que tinha tempo para ir a Segóvia, outro destino interessante. Trem a 300 km por hora leva 25 minutos de Madrid a Segóvia. Da estação Segóvia-Guiomar existe um ônibus que leva ao centro da cidade.
Meu interesse era conhecer o aqueduto romano, o maior da Europa, mas Segóvia tem outros atrativos; é como se voltasse no tempo à era medieval.


 Trem na estação de Segóvia

 Aqueduto romano

Segóvia ao fundo

Aí surgiu o primeiro perrengue: tinha comprado passagem de trem de volta e então precisava do ônibus para a estação no horário correto. Descobri onde era a parada e esperei um tempão; quando o ônibus passou, não parou. Tive de esperar uma hora para o próximo ônibus e acabei tendo de pagar outra passagem de trem e chegando a Madrid bem mais tarde do que imaginava. Jantei e voltei ao hostel para dormir, já que no outro dia, bem cedo, iria a Barcelona.

Saí cedo de Madrid para Barcelona, no dia 13 de outubro; de Madrid a Barcelona fui de trem, embora seja um pouco caro (cerca de 60 euros).
A idéia era conhecer o básico de Barcelona, passar a noite lá e no dia 14 viajar para Milão. Foi exatamente o que fiz, passeando pela cidade durante a tarde do dia 13 e no outro dia visitando alguns outros lugares interessantes, como a Igreja da Sagrada Família.


Sagrada Família, vista do parque em frente

Já estava considerando o passeio findo quando entrei em contato com minha filha que me cobrou uma visita ao estádio do Barcelona. Tinha pouco tempo mas fui conhecer o CampNou.


rolé básico no Campnou

Dia 15 fui de Barcelona a Milão de ônibus. Viagem de uma noite inteira mas relativamente confortável.
A idéia era apenas passar por Milão, com destino a Roma, e foi exatamente o que fiz, ficando poucas horas na cidade. Deixei as mochilas num guarda-malas na estação e fui rodar pela cidade.
Milão é uma cidade onde as pessoas vivem a moda e desfilam a moda pelas ruas. Me senti maltrapilho andando nas calçadas cheias de mulheres bem vestidas e homens - quase todos - usando terno e gravata. Elegância ao extremo.
Deu tempo de visitar a Catedral, a Piazza del Duomo e conhecer o famoso Teatro Scala.


 Catedral de Milão

Teatro Scala

Viajei a tardinha para Roma, chegando na estação Termini já a noite. Já na chegada senti como os romanos recebem o turista; atravessei a rua para fazer um lanche e pedi um lanche e um café. O atendente da lancheria serviu outra coisa e diante da minha reclamação insistiu que era " a mesma coisa", se irritou tanto que chutou uma lixeira metálica contra a parede. Senti que turista não era bem vindo lá.
mais ainda quando saí a procurar o hostel e os muros estavam todos pintados com frases como "fora estrangeiros" e "chega de imigrantes".
Também a dificuldade para conseguir informação; o hostel ficava a duas quadras da estação e ninguém sabia onde era aquela rua. Perguntei a um homem num restaurante e ele me disse que morava ali a 20 anos e não conhecia a rua Carlo Cattaneo; era na frente do restaurante.
No outro dia, bem cedo, fui conhecer o Coliseu e toda a área da Roma antiga; é realmente uma aula de história em 3D.


ruínas da Roma antiga; parece cena de filme

O Coliseu é um caso a parte; ver toda aquela construção enorme e caminhar pelo seu interior é uma volta ao passado. Dá pra imaginar onde sentava o imperador e sua corte e vendo o subsolo imagina-se os gladiadores que dali saíam à arena para lutar.


 frente ao Coliseu

Coliseu por dentro; pode-se ver o subsolo

Depois saí caminhando e descobrindo coisas que normalmente não constam em guias turísticos. Em um determinado local encontrei um casal de orientais em lua-de-mel e o rapaz tinha uma câmera igual a minha mas não sabia usar. Primeiro pediu para que fizesse fotos deles e depois, maravilhado com o resultado, insistiu tanto que fiquei cerca de duas horas ensinando a ele como utilizar a câmera.
Se deixasse, ficariam todo o dia comigo mas como queria ver mais, acabei me despedindo com a desculpa de estar indo almoçar.
Eu costumo dizer que o melhor passeio é quando você está perdido; Exatamente como aconteceu: não achei o caminho de volta e acabei conhecendo partes de Roma que eu nem imaginava.


loja da Ferrari, no centro de Roma

No outro dia fui conhecer o centro de Roma, a parte mais moderna da cidade e, de metrô, visitar o Vaticano.


 praça de São Pedro - Vaticano

 Vaticano

guardas do Papa e suas vestimentas estranhas

Não sou católico mas ir a Roma e não visita o Vaticano é estranho. Muitos turistas e uma grande fila para entrar na Catedral, não sem antes passar por detetores de metal e revista da segurança.
Final da tarde caminhei bastante procurando a Fontana di Trevi, algo que desde criança ouvia falar. E vale a pena visitar, é muito bonita realmente; a dificuldade é fotografar devido a quantidade de turistas em volta da mesma.


Fontana di Trevi

A tardinha, trem para Veneza. A idéia era ficar em Veneza até o outro dia mas aí veio o segundo perrengue.
Cheguei em Veneza a tarde e fui procurar o hostel que tinha reservado; descobri que ficava numa das ilhas, um poco distante e que necessitava pegar um barco até lá. Ate aí nada diferente do normal; em Veneza os ônibus são barcos. Mas descobri também que o transporte público no outro dia não funcionaria. Coisa interessante; não era greve nem nada, apenas uma folga geral. Suponho que por ser segunda-feira, dia que não tem muito turista, eles fazem a folga.


 Grand Canal

 esperando o Vaporetto

as gôndolas famosas

Pedi informação e me disseram que no outro dia só poderia retornar com barco alugado que custaria cerca de 50 euros e tinha de torcer pra conseguir um.
Bom, resolvi que não ficaria na cidade, adiantando meu roteiro em um dia. Deixei a mochila na estação e fui passear de Vaporetto - são como ônibus em Veneza, com pontos de parada e tudo - pelo Grand Canal. Desembarquei na parada Rialto, para conhecer a famosa ponte de Rialto, construída no século Xlll.


ponte Rialto

Junto à ponte existe um mercado com queijos e outras iguarias locais. Passei pela ponte e segui a pé pelas vielas da cidade onde encontrei um local para comer pizza, a moda italiana, boa e barata e também café.


Veneza ao entardecer

A noitinha retornei à estação onde pegaria trem para Trieste; Por indicação da atendente, em vez de Trieste optei por ir a Gorizia, fronteira com a Eslovênia, um pouco antes de Triste.
Aí veio o terceiro perrengue e maior; quando o trem chegou em Udine, parou tudo devido a uma greve dos controladores. A orientação era simplesmente abandonar o trem. Por insistência dos passageiros (poucos) a "chefe do trem" disse que a solução era pegar ônibus ou procurar hotel na cidade e que o próximo trem passaria as oito da manhã, com certeza.
insisti com ela sobre a questão da passagem já paga e ela validou meu ticket, escrevendo algo ininteligível e assinando; estava pelo menos garantindo a passagem.
Não quis me aventurar na cidade que não conhecia e porque já era noite; apenas atravesse a rua e tomei um café no McDonalds, para aproveitar o wi-fi. Só então depois de ter a senha e conectar descobri que era necessário ter um numero de telefone celular local para cadastro.
Retornei à estação e fiquei sentado durante toda a noite, esperando o trem da manhã. Até um determinado horário fiquei conversando com um garoto búlgaro, num inglês trôpego mas nos entendemos.
Já tarde da noite, uma menina que viajava sozinha deitou e dormiu no piso da estação e seguidamente passavam pessoas estranhas, vindas da rua. Tenho certeza de que estavam de olho na mochila da menina e me bateu aquela coisa de pai; fiquei cuidando da menina e suas coisas até o amanhecer. Meu companheiro de viagem, o garoto búlgaro já tinha desabado num banco e roncava.
As oito da manhã, como previsto, chegou o trem para Trieste. Embarquei e a viagem continuou, agora rumo a um país que eu não tinha a menor noção de como seria, a Eslovênia e sua língua - dizem que é a terceira mais difícil de aprender - seus costumes e seu povo.


trem para Trieste

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